janelas espancadas pelo vento,café fervendo monótono à espera que eu acorde.cheiro de dia quente e seco,cheiro de domingo sem fé nem motivo.acordo a tv sonhando por algo melhor que meu calendário premeditado e previsível.na estante livros de bordas entediadas e enjoadas,revistas jogadas no sofá que não me dizem mais nada.
levanto e vou até o banheiro,no espelho me revisito sem interesse.no rosto aquelas pálpebras que se jogam de alturas imensas com pena de si;meu branco dos olhos encardido...me irrita aquela aparência medíocre e comum,estampa repetida de uma camiseta popular.lavo o rosto esfregando os poros e as marcas,com as unhas arrancando pele,passado e falsas esperanças.fico nua em sangue,exposta e dura.
corro assustada de mim e me jogo no sofá,hipnotizada pelas pás violentas do ventilador eficiente e servil,rompendo o ar com uma resignação ridícula,correndo atrás de si próprio.jogo o controle remoto nele,minhas mágoas,meu tédio,minha merda de vida que me satisfaz e não me preenche nunca.jogo minha memória,meus planos,meus medos,minhas dúvidas.jogo meu amor platônico,meu amor presente,meu amor não correspondido.me jogo inteira com as mãos para trás,me abandono...me odeio me amando estupidamente,me solto no ar sólido daquele dia de domingo.adormeço esperando que a queda pra mais uma segunda me leve daqui pra sempre.mas meus passos se tornam cada vez mais cansados...me levo,me arrasto para o fim da consciência:um dia ainda poderão ver através de mim,minha consistência diluída a cada semana
chico science & nação zumbi::monólogo ao pé do ouvido